10 de junho de 2010

A metamorfose

Franz Kafka, 1912, República Tcheca

“A metamorfose” conta a história de Gregor, um caixeiro-viajante que mora com os pais e a irmã. Sua personalidade é simples, suas aspirações são medíocres, sua vida gira em torno do trabalho e do compromisso de levar o sustento para os pais e tentar oferecer um futuro promissor para a irmã, uma musicista em potencial. Toda essa rotina singela e desinteressante, poderíamos dizer mesmo que empobrecida de vigor, se vê abruptamente quebrada por um acontecimento disparatado: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso” (p.7).

Em Kafka, o que mais espanta não é o absurdo, mas a aparente serenidade e o comportamento blasé dos personagens frente a esse absurdo. Um membro da família amanhece metamorfoseado em um monstro e, superado o choque inicial, as preocupações de Gregor e de seus familiares concentram-se quase que exclusivamente em questões de ordem prática, como se o importante fosse saber como agora o filho vai poder trabalhar, como a família vai se sustentar, como organizar o quarto para melhor proveito do irmão, como esconder essa nova condição de tudo e de todos, o que fazer para a vida seguir com normalidade...

A inesperada mudança é encarada com uma dose desconfortável de tranquilidade :

“E enquanto Gregor expelia tudo às pressas, mal sabendo o que falava, aproximou-se do armário com facilidade – certamente em conseqüência da prática já adquirida na cama – tentando erguer-se apoiado nele. Queria efetivamente abrir a porta, deixar-se ver e conversar com o gerente; estava curioso para saber o que diriam, ao vê-lo, os outros que agora exigiam tanto a sua presença. Se eles se assustassem, então Gregor não tinha mais nenhuma responsabilidade e podia sossegar. Mas se aceitassem tudo tranqüilamente, então ele não tinha motivo para afligir-se e podia, caso se apressasse, estar de fato na estação ferroviária às oito horas” (p.20-21).


Interpretações

O que Kafka pretendia ao criar uma história com um personagem que sofre tão inesperada e impossível transformação?

Alguns vão argumentar que a metamorfose refere-se a adesão, por parte de um indivíduo, a novas ideias e conceitos que não aqueles que transitam no fluxo da mediocridade, algo que o deslocaria dos padrões de seu grupo, de sua sociedade, relegando-o à solidão e ao isolamento. Outros diriam que a transformação ilustra uma deficiência física ou mental que reduz o sujeito a uma condição de incapaz, logo imprestável para o capitalismo e estorvo para a família burguesa. As interpretações não param por aí e podem seguir por inúmeros caminhos tanto mundanos como fantásticos.

Logo, se existe uma resposta à pergunta acima, ela não vai em direção a uma interpretação específica para a bizarra metamorfose, seja de fundo psicológico, moral, histórico ou biológico. O que podemos afirmar, com boa dose de segurança, é que Kafka buscou, no seio da literatura, construir uma metáfora aberta, um signo absorvente à reflexão, capaz de ampliar a nossa percepção sobre imagens e sentidos que escapam à lógica linear e cartesiana a qual estamos acostumados.

Mais do que em outros casos, essa é uma obra que depende muito do leitor, de sua experiência ao percorrer as páginas, da leitura que faz, dos sentimentos que são despertados. “A metamorfose” não oferece nenhuma verdade, ela apenas proporciona asas para que cada um experimente um voo particular e bastante interessante sobre o terreno das incertezas, questionamentos e absurdos que povoam a alma humana.

Um comentário:

Nathalia disse...

A tal “serenidade”, em Kafka, é a própria condição de impotência do sujeito diante da situação em que se vê. Esse sujeito emparedado, massacrado pelo sistema e pela própria existência, não pode reagir; é um animal encurralado, domesticado no próprio absurdo de uma realidade implacável(e nada mais absurdo do que ela!). Isso é o que, por excelência, define o “kafkaniano”: a aberração, que se impõe onde parece reinar a lógica imperturbável, civil e tributável da máquina do mundo, como um incômodo que não pode ser ignorado, um soco no estômago ou uma mal disfarçada e monstruosa ferida.